Acabo de voltar da sessão de cinema que paguei R$2 pela meia entrada. Terminei o filme com a sensação de estar grudada à cadeira do cinema, o que pode significar que fui muito tocada pelo filme, que gostei muito ou que me decepcionei enormemente. Não é sempre que eu termino de ver um filme com a sensação de estar grudada na cadeira, mas essa sensação pode significar diferentes coisas.
Dessa vez, fui tocada pelo filme. E não foi pela histórinha de amor à la Romeu e Julieta, nem por me dar conta da violência que existe do nosso lado e a gente não vê porque não a vive, tampouco pela relação entre os irmãos que tocou minha colega. O que me deixou com a cabeça pesando e com a garganta cheia de nós apertados foi uma terrível sensação de impotência. Vontade de levantar e gritar: “Porra, o que eu faço pra mudar alguma coisa?”
Eu não me contento com a resposta que muita gente usa pra fechar a questão, no estilo “você não pode fazer nada, princesa”. É uma resposta mentirosa. Porém, o que me incomoda é achar que o que pode ser feito não é suficiente. Enquanto psicóloga, como se atende alguém com uma história assim? A teoria da escuta é bonita, a teoria de aliviar a dor e mostrar direcionamentos para que cada um, como agente de sua própria vida, possa encará-la da forma mais abrangente e equilibrada, também é muito bonita. Só que no final, caio novamente naquele ponto de pensar que um trabalho social num ambiente assim tem diferentes impactos, então teorizo e vejo que impactos pequenos ainda assim são válidos… mas… como é que você vai saber se o seu trabalho está indo pra linha de um “fazer conformar” ou vindo como fruto de um egocentrismo em querer ser a mocinha da cidade que se preocupa com a situação lá fora?! O que seria realmente genuíno e poderia abocanhar um mundo desses com garras e dentes?
Aí que entra a história de amor no meio do filme. Um trabalho social, um “fazer a diferença clichê” fica muito confuso no meio de tantos propósitos. O amor traz as garras e os dentes. Por amor a gente tem coragem de se por em segundo plano em benefício de outrém. Quem vai ajudar as criancinhas da favela quando sua própria vida pode estar em perigo e não se tem nada a ver com elas em questões de carne e sangue? O ser humano, quanto mais busca ser racional, mais descobre o quão carnal é.
E o que me deixou com esse nó na garganta foi começar a tentar entender “porque eu estou aqui e tanta gente está do lado de lá?” e voltar na questão do amor – mas dessa vez o amor terno e gentil, não o de garras e dentes. Ainda é cultural, como se educa e como se é educado. Como vemos ou deixamos de ver o rapaz que fica na saída do cinema segurando a porta. Como tratamos ou deixamos de enxergar o menino que dorme na rua, a servente que limpa o banheiro da boate, a empregada que lava as roupas, o porteiro que passa o dia ali, o fazedor de pipoca que fala português errado, o catador de lixo que anda com a blusa suja, o pedinte do sinal que bate no vidro do carro pedindo moedas, o moleque que roubou sua carteira na rua, o cara que estava batendo punheta na praia, a mulher que sai na rua com os peitos à mostra e o cabelo despenteado gritando coisas sem sentido, os garotos brigando no ponto de ônibus, a mãe da criança que foi morta. A gente esquece do amor.
É fácil amar quem nos dá carinho, quem nos trata bem e faz o que esperamos. Também é fácil ser rude com quem nos ama, nos dá carinho, nos trata bem, porém não faz o que esperamos: a mãe que esqueceu de comprar o biscoito preferido, o pai que não deixou viajar no feriado, o namorado que esqueceu o aniversário de namoro, a professora que está cobrando a tarefa que deu preguiça de fazer, o colega que comprou a mesma camiseta que você queria comprar (e que sabia que você queria comprar).
Não estou querendo dizer que um filho não tem razão pra se chatear com um pai que não o deixou viajar. Nem que o moleque que roubou sua carteira pode justificar o roubo pela história dele. Uma coisa não é maior ou menor que a outra, são apenas diferentes. Mas acho que falta amor e falta olhar as coisas de uma forma mais abrangente. E, seja típico ou não da natureza do ser humano essa história de egocentrismo e de disputa natural, pra que pensamos tanto então? Pra que fazemos faculdade, mestrado, doutorado, eleições, criamos filmes, apresentamos teatros, escrevemos livros, acessamos nossos computadores e fazemos pesquisas em laboratório? Apenas para ter um diploma, uma carreira, entretenimento, realização profissional ou se passe o tempo e tenha menos preocupações com assuntos que podem vir a ser banais?
Por que gastamos milhões com pesquisas para fazer um carro mais potente, uma máquina mais veloz, uma roupa mais colorida – enquanto tem tanta gente no mundo morrendo das formas mais violentas e sendo maltratado, sofrendo preconceito, apanhando, levando tiro e vivendo sem dignidade? É, a resposta disso tudo eu já sei. Mas como é que vocês conseguem se conformar com ela?
… querendo saber por onde começar.
Setembro 8, 2008 às 7:13 pm |
“O ser humano, quanto mais busca ser racional, mais descobre o quão carnal é.”
“A gente esquece do amor.”
“omo tratamos ou deixamos de enxergar o menino que dorme na rua…”
tocou aqui. bem lá, aonde tudo isso fica. mas eu ainda me sinto presa na cadeira do cinema…
“Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo”
[Zé Ramalho - O meu país]